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Quinta-feira, 24 de Agosto de 2023

 
     

Neutralidade não cabe no jornalismo

  

A pretensa neutralidade do jornalista pode ser conveniente para o poder econômico, mas não trabalha em favor do interesse público. Não há posição eticamente neutra sobre o que é justo em uma sociedade

  

Da dir. à esq.: Carlos Scomazzon, Eliege Fante, Adriane Rodrigues e Ilza Girardi no Seminário "Jornalismo e Ativismo Ambiental: avanços e limites na defesa do ambiente natural”


Por Carlos Scomazzon*

No meio jornalístico, tornou-se quase um lugar-comum a tese de que jornalista não pode opinar sobre determinados assuntos ou ter uma atuação política, pois ao fazê-lo estaria colocando em risco a sua imparcialidade. Quando ouço alguém defender esta falsa tese, muito conveniente para os interesses das empresas que comandam os grandes veículos de comunicação, lembro do seguinte diálogo entre dois personagens d’O Arquipélago, do épico O Tempo e o Vento, de Erico Verissimo: “Como narrador espero colocar-me num ângulo impessoal e imparcial”, diz o personagem escritor, que pretende escrever um romance. “Impossível!”, responde o amigo. “Tua parcialidade mais cedo ou mais tarde se revelará até mesmo na maneira de apresentar uma personagem ou um episódio. Tuas idiossincrasias, gostos, birras, implicâncias, simpatias e antipatias acabarão por vir à tona, dum modo ou de outro.” Tal como a verossimilhança é importante para a história contada por um romancista, a busca da verdade deve ser a pedra fundamental do jornalismo. Mas esta busca não deve ser confundida com neutralidade ou isenção, tampouco a verdade será encontrada na miragem falsa da objetividade.

A pretensa objetividade jornalística é uma fantasia cultuada pela imprensa tradicional, que reluta em reconhecer-se como parcial e empresarial –portanto, permeada por interesses econômicos. Se a informação vira mercadoria, a verdade perde sua relevância. É neste contexto que o jornalismo ambiental ganha importância como contraponto a esta mentalidade em que o veículo de comunicação privado se coloca como formador de opinião, mediador legítimo e único dos interesses da sociedade. No jornalismo ambiental não cabe a neutralidade, ele só faz sentido pela busca da verdade baseada em fatos inquestionáveis que permitam ao jornalista se posicionar sobre o tema que está investigando ou abordando. No jornalismo ambiental, não há espaço para a neutralidade frente ao desmatamento, ao genocídio de povos indígenas, ao financiamento do garimpo ilegal e das milícias criminosas, aos interesses privados que permeiam as discussões dos planos diretores dos municípios, ao massacre de populações negras e pobres e ao racismo. Em questões tão importantes, o “outro lado” é a barbárie: o desmatador, o genocida, o racista, o grileiro de terras, o violador de direitos humanos. Para mostrar e retratar a realidade de modo honesto, o jornalista não pode olhá-la a partir da janela da sala da redação do seu veículo, é preciso estar no local onde os fatos acontecem, falar com as pessoas, entender os interesses envolvidos. Qualquer que seja a pauta, todo jornalista aborda os fatos que dão origem à sua reportagem a partir de um ponto de vista próprio, particular. Isso não compromete sua reportagem; ao contrário, a valoriza, desde que esteja ancorada em fatos comprovados. Qualquer jornalista possui crenças, gostos, valores, vivências e afetos que o definem e dão o caráter autoral da sua matéria jornalística. Ao fazerem reportagens, jornalistas fazem escolhas pessoais, mesmo quando se pretendem objetivos, e isso não é, necessariamente, um demérito; ao contrário, pode ser o seu mérito, se a matéria jornalística estiver lastreada na busca da verdade, na informação correta e precisa. Definir a pauta e o que vai ou não ser publicado, a fonte a ser consultada, o título da matéria e o tom mais apropriado para o texto são decisões editoriais que podem deixar mais claro qual o viés da reportagem e qual caminho o jornalista percorreu; logo, não há impessoalidade nas decisões.

Perguntada se era desejável ou mesmo possível separar jornalismo de ativismo quando se abordam temas tão sensíveis como o racismo, a repórter investigativa estadunidense Nikole Hannah-Jones respondeu: “Eu não acredito que nenhum jornalista seja apenas objetivo, seja ele de uma minoria racial ou não. Quando você se torna especialista em algo, você constrói opiniões sobre aquele assunto. O que precisamos é objetividade nos métodos. Ter certeza de que se está sendo preciso e justo, usando métodos objetivos. Mas não precisamos fingir que não temos pensamentos e sentimentos sobre aquilo que cobrimos. Eu escrevi sobre segregação racial no sistema público de ensino e claramente eu penso que essa segregação é errada. Eu me oponho à segregação escolar, mas isso não significa que eu não possa reportar de maneira justa e precisa sobre este fenômeno”.

A falsificação da realidade ou a pretensa neutralidade do jornalista pode ser conveniente para o poder econômico, mas não trabalha em favor do interesse público. E, se não há interesse público envolvido, não há jornalismo, resta o engodo e a manipulação. A ideia de neutralidade é a de inércia, de não agir ou se posicionar diante dos fatos, enquanto a imparcialidade já é um posicionamento de busca por um julgamento não- tendencioso. Sempre que observamos alguma coisa o fazemos a partir de um determinado ponto. Não há posição eticamente neutra sobre o que é justo em uma sociedade.

O cenário político brasileiro se transformou drasticamente a partir de junho de 2013, e um movimento de protesto que se iniciou legítimo e tomou as ruas, a partir daquele ano, acabou sequestrado em grande parte por uma extrema-direita ressentida que demonizava a política. O apelo, em certo momento, para que as pessoas saíssem às ruas sem mostrar bandeiras de partidos ou de organizações talvez seja o retrato mais evidente da aposta desses grupos que se apresentavam como apartidários e apolíticos, como o Movimento Brasil Livre (MBL), nas manifestações que tomaram conta do país. A grande mídia, infelizmente, não se restringiu apenas a cobrir os acontecimentos como atuou vigorosamente no incentivo daqueles grupos que, mais adiante, seriam decisivos no impeachment da presidenta Dilma Roussef. A dita imprensa isenta e imparcial mostrava seu rosto mais cruel, o do apoio ao golpismo. A vitória de Jair Bolsonaro, nas eleições de 2018, representou o triunfo desta aposta da extrema-direita na despolitização dos cidadãos brasileiros e na demonização da política. Foram quatro anos de trevas para o Brasil e de ameaças constantes à cidadania e à democracia durante o governo de Jair Bolsonaro. A grande imprensa, com seu viés oficialesco e pautada pelo jornalismo declaratório, numa relação promíscua que privilegia as fontes oficiais e especialistas de sempre em troca de promessas de informações privilegiadas, não foi capaz de identificar e denunciar, ainda durante a campanha eleitoral de 2018, o perigo extremista que representava Bolsonaro presidindo um país continental como o Brasil. A grande mídia que se autointitula como “isenta e imparcial” tratou o perfil nitidamente autoritário e extremista de Bolsonaro apenas como um traço exótico do ex-capitão que, ainda nos tempos de Exército, havia planejado bombardear quartéis e que, em 28 anos como parlamentar, evidenciou sua tendência ao autoritarismo e à violência. Hoje, após muito sofrimento, conhecemos o resultado: o terror de um governo extremista que praticou a corrupção desenfreada, a negação da ciência, a campanha antivacina no momento em que o mundo padecia com milhões de mortes pela pandemia por covid-19 (mais de 700 mil mortes apenas no Brasil), a perseguição política aos inimigos, a liberação desenfreada da posse de armas que aumentou o poder bélico das facções criminosas, o massacre de indígenas e a invasão de terras na Amazônia, a política criminosa de devastação ambiental na Amazônia e o massacre da população negra nas periferias das cidades brasileiras.

Tratar um personagem extremista apenas como “controverso” ou “polêmico” foi o modo como os grandes veículos de comunicação encontraram para amenizar o então candidato a presidente que há muito defendia torturadores, pregava a eliminação de oponentes e se dava ao direito de definir, asquerosamente, quais mulheres mereceriam ou não serem estupradas. O “dois-ladismo” da imprensa, aquela prática jornalística que prega dar espaços iguais a candidatos que atuam dentro dos parâmetros democráticos e àqueles que operam sistematicamente contra os direitos humanos e a democracia, colocaram sua pretensa neutralidade a serviço da propagação de fakenews e da desinformação.

Certa vez, Millôr Fernandes declarou: “A imprensa brasileira sempre foi canalha. Eu acredito que, se a imprensa brasileira fosse um pouco melhor, poderia ter uma influência realmente maravilhosa sobre o País. Acho que uma das grandes culpadas das condições do país, mais do que as forças que o dominam politicamente, é nossa imprensa”. Na edição de 2 de julho de 1995, na coluna “O Estado das Coisas” da Revista ZH, o termo “ecojornalista” aparecia entre os 20 itens elencados por três jornalistas - que assinavam apenas as iniciais de seu nome - uma nota intitulada “Nada Mais Chato que...” Não por acaso, a Redação de Zero Hora era comandada à época pelo hoje bolsonarista Augusto Nunes. A resposta à pretensa piada foi uma enxurrada de cartas de protesto enviadas à ZH, que se viu obrigada a publicá-las como forma de manter a pose de veículo isento.

Saber estarmos no lado contrário ao de um veículo de comunicação cuja principal colunista política, recentemente, manifestou estranheza pelos protestos contra a destruição do Parque Harmonia é, sem dúvida, motivo de orgulho para todos os ecojornalistas. Ao lado do Prêmio ARI de Jornalismo, da Medalha de Porto Alegre e da Comenda Porto do Sol, o Núcleo de Ecojornalistas do RS se orgulha de ter sido brindado com este mimo de Zero Hora, um certificado de que sempre estivemos do lado certo.

 

*Jornalista e associado ao NEJ-RS. Tem passagens pelas redações dos jornais Zero Hora, Correio do Povo e revista WonderFull, além de colaborações para outros periódicos. Entre 1999 e 2022 atuou como jornalista concursado da Assessoria de Comunicação da Câmara Municipal de Porto Alegre. Está lançando o livro “A cor púrpura da epilepsia", um projeto da editora Casa Verde e com prefácio de Luís Augusto Fisher.

** Texto da palestra realizada no “Seminário Jornalismo e Ativismo Ambiental: avanços e limites na defesa do ambiente natural”, em 15 de agosto de 2023, evento promovido pela Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (AGAPAN) em parceria com a Associação Riograndense de Imprensa (ARI), Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental da UFRGS-CNPq e Núcleo de Ecojornalistas do RS (NEJ). O tema da mesa foi “Atuação dos Ecojornalistas”, e teve a participação da coordenadora do NEJ-RS, Ilza Girardi, e das associadas Adriane Rodrigues e Eliege Fante. Para assistir a gravação do evento acesse o canal do Youtube da Agapan: https://www.youtube.com/watch?v=oHTby54VAhI&t=2572s 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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