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Observatório de Jornalismo Ambiental

Terça-feira, 27 de Abril de 2021

 
     

O ambiente é ponto central da geopolítica – e do jornalismo

  

O jornalismo começa a reverberar a urgência percebida pela comunidade científica e pelas comunidades afetadas. É necessário ultrapassar a abordagem sobre as possíveis sanções econômicas e atentar aos desdobramentos das negociações que envolvem as políticas ambientais

  

Foto: Marcos Corrêa/PR – Agência Brasil     
Jair Bolsonaro participa da Cúpula do Clima em 22 de abril de 2021


Por Débora Gallas Steigleder*

Por muito tempo, os estudos sobre jornalismo no Brasil destacaram a pouca recorrência das pautas ambientais no universo das hard news – aquelas notícias que ganham as manchetes e destacam os acontecimentos de grande impacto na atualidade. Na última semana, porém, a repercussão sobre a postura do governo Bolsonaro na Cúpula do Clima promovida pelos Estados Unidos evidenciou que os tempos são outros. O evento, que teve início em 22 de abril, ofuscou pautas de efemérides que normalmente seriam encontradas sobre a data festejada na ocasião: o Dia da Terra.  Em algum passado não tão distante, a data renderia apenas uma lista de fatos curiosos.

O enfrentamento às mudanças climáticas é a ordem do dia nas discussões diplomáticas, e o jornalismo começa a reverberar a urgência percebida pela comunidade científica e pelas comunidades afetadas. A movimentação da cobertura foi ainda anterior ao pronunciamento dos líderes mundiais, na tentativa de compreender o contexto político e econômico que moldaria a estratégia discursiva a ser adotada por Jair Bolsonaro para o encontro. Podcasts como Café da Manhã (Folha de S. Paulo/Spotify) e O Assunto (Globo), por exemplo, tiveram episódios dedicados às expectativas da participação brasileira na Cúpula do Clima, já prevendo que o presidente brasileiro precisaria esconder sua orientação negacionista para não espantar investimentos no país.     

Os programas ressaltaram que a maior parte das emissões de gases de efeito estufa no Brasil tem origem no desmatamento e recordaram a denúncia de cientistas e de organizações não-governamentais sobre a omissão do governo federal em relação aos crimes ambientais, especialmente no âmbito do Ministério do Meio Ambiente. Também ressaltaram que tal desmonte atinge sobretudo os povos indígenas, enfim reconhecidos como importantes atores no debate sobre clima pelo jornalismo hegemônico. De fato, a cobertura jornalística parece compreender a transversalidade da pauta ao abordar a relação conflituosa entre sociedade e natureza. No Portal G1, por exemplo, os desdobramentos do discurso de Bolsonaro foram manchete em diversas editorias ao longo do dia, como Mundo, Política e Natureza.

Porém, o destaque da cobertura foram as possíveis sanções econômicas que o governo estadunidense pode impor ao Brasil caso o país não apresente resultados que indiquem comprometimento com a meta de neutralizar as emissões de carbono até 2050, uma vez que a gestão de Joe Biden busca reposicionar o país como liderança nas articulações geopolíticas internacionais a partir da pauta climática. É necessário, portanto, que a cobertura jornalística siga atenta aos desdobramentos das negociações que envolvem as políticas ambientais – do âmbito local aos encontros de líderes globais.

* Este texto foi produzido por integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) no âmbito do projeto de extensão "Observatório de Jornalismo Ambiental". A republicação é uma parceria com o Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul (NEJ-RS).

OJA - EcoAgência

  
  
  
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