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Pesquisa científica

Terça-feira, 15 de Janeiro de 2013

 
     

Pesquisas sobre mudanças climáticas e biodiversidade são incipientes

  

Análise cientométrica realizada pela Fundação Grupo Boticário identificou 948 publicações científicas relativas ao tema no mundo, nas últimas duas décadas, sendo que 6% são sobre o Brasil.

  


Por Maria Luiza - NQM Comunicação

As pesquisas sobre mudanças climáticas e biodiversidade no Brasil, apresentadas nos últimos anos pela comunidade científica nacional e internacional, são incipientes. É o que mostra a “Análise de Publicações Científicas Existentes Relativas aos Impactos das Mudanças Climáticas sobre a Biodiversidade”, trabalho realizado pela Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza. “A análise cientométrica, que durou cerca de um ano, teve por objetivo gerar indicadores para avaliação quantitativa do progresso científico de pesquisadores, periódicos e instituições sobre o tema em questão”, explica a diretora executiva da Fundação Grupo Boticário, Malu Nunes. Segundo ela, o diferencial desse trabalho em relação a outras análises cientométricas sobre mudanças climáticas é justamente o fato de ele ser focado nos impactos sobre a biodiversidade brasileira. Além disso, o período de tempo pesquisado, que soma 22 anos, é um dos maiores entre os estudos já realizados.

Foram identificados 948 artigos publicados entre 1990 e junho de 2012 e que têm como temática a relação entre as mudanças climáticas e a biodiversidade em todo o mundo, sendo que os resumos de todos eles estão disponíveis para consulta no site da Fundação Grupo Boticário (http://www.fundacaogrupoboticario.org.br/publicacoesmudancasclimaticas). Do total de artigos, apenas 59 (6%) tratam especificamente dos impactos das mudanças climáticas sobre a biodiversidade do Brasil. O primeiro foi publicado em 2001 e houve um crescimento significativo a partir de 2009.

Dessas publicações focadas no Brasil, 19 foram classificadas dentro da temática de "mudanças futuras previstas" e 11 em "mudanças atuais registradas e monitoramento". Entre esses estudos, os temas mais abordados são: distribuição geográfica de espécies, diversidade biológica e serviços ecossistêmicos. Quase a totalidade dos estudos (87%) trata de ambientes terrestres e a maioria dos que cita algum bioma específico faz referência à Mata Atlântica. Não houve estudos com micro-organismos e fungos, e há equilíbrio entre artigos com fauna e flora. Das 16 publicações com animais, 75% são com vertebrados, principalmente aves.

O bicudinho-do-brejo (Stymphalornis acutirostris) é um exemplo de espécie citada em publicação sobre mudanças climáticas e biodiversidade no Brasil. É uma ave que ocorre em ambientes terrestres de Mata Atlântica e que foi abordada em artigo classificado nas categorias “mudanças futuras previstas” e “distribuição geográfica de espécies”. Se as previsões estiverem corretas, poderá haver no futuro redução na distribuição dessa espécie que hoje já é ameaçada de extinção.

Lacunas de conhecimento

Esses números revelam, segundo a conclusão da análise cientométrica, que “a pesquisa sobre impactos de mudanças climáticas sobre a biodiversidade, embora emergente e com inequívoca tendência de rápido crescimento, ainda se encontra em estado incipiente”. 

“A falta de conhecimento dificulta que ações e estratégias de adaptação às mudanças climáticas sejam eficazes”, afirma a diretora executiva da Fundação Grupo Boticário. Ela ressalta que a diversidade biológica e os serviços ambientais são essenciais para a manutenção da humanidade, mas as mudanças climáticas podem impactá-los severamente. “Por isso, entender como os dois temas estão associados é uma forte e urgente demanda da sociedade”, complementa Nunes.

No Brasil, embora exista um pouco de conhecimento em relação aos impactos das mudanças climáticas sobre as formações florestais brasileiras, sobretudo as amazônicas, os estudos desses impactos sobre elementos da biodiversidade são praticamente inexistentes. Por exemplo, é preciso saber mais sobre as mudanças prováveis na distribuição geográfica de espécies e biomas. Também faltam estudos em ambientes marinhos; apenas 5% dos artigos sobre o Brasil tratam desse ambiente.

Outro tipo de estudo apontado pelo relatório como escasso é o experimental, que pode gerar informações importantes e não apresenta tantos desafios metodológicos ou financeiros. Um exemplo disso é a manipulação das condições de temperatura, umidade ou concentração de gás carbônico, segundo o que se espera em cenários de mudanças climáticas, para observar as respostas de espécies ou comunidades a essas condições. Uma terceira necessidade consiste em monitoramentos de longa duração, que têm o potencial de registrar respostas da biodiversidade às mudanças climáticas que já estão em andamento.

Incentivo à pesquisa

Para contribuir com geração de conhecimentos que ajudem a diminuir essas lacunas, em 2011, a Fundação Grupo Boticário lançou o Edital Bio&Clima Lagamar. O objetivo é financiar projetos de longo prazo que tratem do impacto das mudanças climáticas sobre espécies e ecossistemas na região do Mosaico de Áreas Protegidas do Lagamar (litoral do Estado do Paraná e litoral sul do Estado de São Paulo), onde se concentra o maior remanescente contínuo de Mata Atlântica e um dos maiores estuários de vida marinha do mundo.

Atualmente, sete projetos – com duração de até três anos – recebem o apoio por meio do edital. Há estudos sobre as implicações das mudanças climáticas nos anfíbios do Lagamar, nas aves estuarinas (que inclui o bicudinho-do-brejo) e na dinâmica populacional do papagaio-de-cara-roxa. Também há projetos que estudam a relação entre as mudanças climáticas e os mangues, os parâmetros oceanográficos, as praias arenosas, e o impacto dessas transformações no crescimento e captura de carbono de espécies de árvores da Mata Atlântica.

Método da análise cientométrica

Para a análise cientométrica, foram feitas consultas por palavras-chave em bases de dados de diferentes países. Num primeiro momento, foram registrados 2.936 artigos sobre mudanças climáticas e biodiversidade em todo o mundo, publicados na base de dados Web of Science (WoS) do Thompson Institute for Scientific Information (ISI), entre 1990 a 2011.

Num segundo momento, essas publicações foram filtradas para eliminar as que não eram relevantes para o tema em questão e chegou-se a um número de 908 registros. Na terceira etapa, foram acrescentados outros 59 artigos, após uma nova busca em mais duas bases de dados (Scopus e SciELO) para recuperar artigos específicos sobre o Brasil publicados até junho de 2012. Retirando as repetições, no total, foram identificados 948 artigos.

NQM Comunicação/EcoAgência

  
  
  
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