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Segunda-feira, 19 de Novembro de 2012

 
     

Revitalização: o Cais de Porto Alegre em debate

  

Projeto prevê que antigos armazéns sejam reformulados para abrigar lojas, bares e restaurantes, faculdades e espaços culturais. Na área junto à Usina do Gasômetro será construído um shopping e estacionamentos. 

  

Armazéns do Cais Mauá, em Porto Alegre


Por Anna Liza de Freitas e Precht e Karen de Souza del Mauro, especial para a EcoAgência de Notícias

A estrutura de uma cidade vai se definindo ao longo do tempo de acordo com o uso que as pessoas fazem dos diversos espaços existentes. É assim que percebemos o quão artificial é uma cidade como Brasília, que foi projetada e construída sem levar em conta as necessidades e as escolhas da população. Até mesmo os caminhos internos em uma praça não são previamente planejados. Os frequentadores do local vão, naturalmente, escolhendo por onde passar e deixando as marcas no gramado, para só então serem construídos os passeios. Com Porto Alegre não poderia ser diferente. As margens do Guaíba, onde hoje fica a edificação conhecida como Cais do Porto Mauá, sempre foi utilizada para que navios atracassem trazendo e levando viajantes e mantimentos. É neste local que a atual administração da prefeitura vai colocar em prática o projeto chamado de “Revitalização do Cais”.

O projeto foi desenvolvido pelos arquitetos Fermin Vasquez, da Espanha, e o paranaense Jaime Lerner e vai custar 600 milhões de reais. Ele prevê que os antigos armazéns sejam reformulados para abrigar lojas, bares e restaurantes, faculdades e espaços culturais. Na área junto à Usina do Gasômetro será construído um shopping e estacionamentos, além de um setor nas docas entre o Mercado e a Rodoviária, que terá edifícios de escritórios, hotel, estacionamentos e casa de espetáculos no prédio do antigo Frigorífico. O shopping terá dois pavimentos e uma praça na sua cobertura. Ela será ligada à praça Brigadeiro Sampaio por passagem sobre a avenida João Goulart. Os escritórios e o hotel estarão em três torres de 50 metros de altura. Também será criado um eixo com a rua Riachuelo, conduzindo a rua dos Andradas até a margem do Guaíba.

O luxuoso empreendimento é parte das obras para a Copa do Mundo de 2014, que será realizada no Brasil e terá Porto Alegre como uma das sedes. O arquiteto Glênio Bohrer, do gabinete de Planejamento Estratégico da prefeitura, é coordenador do Projeto Viva o Centro e afirma: “Só vejo aspectos positivos pelo investimento, pela criação de um polo de turismo e lazer altamente qualificado, pela projeção internacional da obra, para o desenvolvimento do Centro Histórico e da própria cidade”. Glênio destaca ainda que do ponto de vista ambiental, haverá a qualificação da área junto ao rio, que passará a ser disponibilizada pela população. "As obras não oferecem maiores riscos de impacto ao meio ambiente por estarem em um espaço construído e modificado já há muitos anos”.

No entanto, o projeto de “revitalização” tem que ser encarado em uma conjuntura que leve em conta aspectos ambientais e sociais, não apenas econômicos, políticos ou estéticos. O muro da avenida Mauá, construído no início da década de setenta, após a trágica experiência da enchente de 1941, recebe até hoje muitas críticas por afastar os porto-alegrenses das águas do Guaíba. Com a construção de torres comerciais para escritórios, hotel de luxo, shopping de 13 mil metros quadrados e estacionamento para 3500 carros, entre outras pomposas instalações, resta saber qual parcela da população vai, de fato, usufruir desses espaços. Nestor Nadruz, arquiteto e urbanista, membro da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), é enfático ao afirmar que não há pontos positivos em fazer este empreendimento. "Por trás disto estão especuladores mercadológicos, como está a existir em todo o mundo capitalista. A área do porto só está necessitando de revitalização nas cabeças dos investidores e dos governos estadual e municipal. A área, erguida nos anos 20, já faz parte da formação e da cultura da cidade. Ela está pronta.”

Não há dúvidas de que a área necessita de melhorias, como mais iluminação e segurança, criando espaços que integrem natureza e história, preservando e valorizando a estrutura existente. O Cais estaria, assim, acessível a todos os cidadãos, como espaço de lazer e cultura, visando à qualidade de vida da população. Essa é uma das poucas áreas históricas da cidade ainda não degradada. A imagem do porto está no imaginário porto-alegrense e é um ícone da cidade. O historiador e jornalista Rafael Guimaraens conta que, ao longo dos anos, o porto adquiriu uma importância fundamental para a economia de Porto Alegre. "Através dele, chegavam políticos, artistas e visitantes ilustres, sempre recebidos pela população. Levar as crianças para visitar navios estrangeiros que atracavam no cais era programa obrigatório na cidade, pelo menos enquanto o porto teve vitalidade.”

Nas décadas de 1950 e 1960, durante o Governo de Juscelino Kubitschek, quando o Brasil aderiu à indústria automobilística, o porto perdeu grande parte de seu movimento, mas nunca chegou a ser desativado. As alterações propostas pelo projeto da prefeitura mexem na morfologia de toda Porto Alegre, quebrando seus visuais e suas características históricas. A cidade apresenta dificuldades nas áreas de saúde, educação e transporte. Os 600 milhões a serem investidos poderiam ser destinados para as necessidades mais urgentes dos cidadãos. Talvez fosse mais acertado priorizar a qualificação do transporte coletivo em vez de construir um estacionamento para mais de três mil automóveis, evitando prejuízos como a poluição e o caos no trânsito.

Como lembra Nadruz, “as cidades não são mercadoria, exclusiva de grandes negócios, mas sim o lugar de vida de seus cidadãos". O real crescimento das cidades, diz ele, visa aos interesses coletivos e não ao ‘desenvolvimento econômico’ para alguns. O cidadão porto-alegrense precisa estar atento a todas as possíveis consequências da “revitalização” do Cais do Porto Mauá para o meio ambiente e a sociedade. Isso porque é fácil se encantar com os apelos estéticos do projeto quando não há uma reflexão sobre as motivações financeiras e políticas dessa iniciativa.


Matéria elaborada para a disciplina Jornalismo Ambiental, FABICO/UFRGS, sob a orientação da Profa. Ilza Girardi.

 

Ecoagência Solidária de Notícias Ambientais

  
  
  
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