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Observatório de Jornalismo Ambiental

Terça-feira, 15 de Dezembro de 2020

 
     

Comendo o planeta: nós e o jornalismo podemos nos libertar do autoengano?

  

No sentido de como o jornalismo nos interessa, é necessário distender o tempo – espaço que habitamos, pensando nossas vidas por modos que não neguem o compartilhar

  

Reges Schwaab     


Por Reges Schwaab*

Para ir em direção ao colapso, o conjunto de humanos tem mantido sua habilidade de andar a passos largos. Essa caminhada é reflexo de uma relação com o mundo, e com os demais, pautada por fatias de realidade, descompassada do tempo natural e alicerçada em aparências. Então nossa ação, em geral, não vem tramada pelo coletivo e pelo cuidado com a vida, mas por balizadores de esferas privadas. E nem há um incentivo, em perspectiva macro e política, para isso. A emergência ambiental e climática pode até ser escrita como urgente na manchete, mas é incômoda no imediato, por isso deixada de lado e negada no comportamento cotidiano.

A reflexão precisa ser contundente. E parece novamente importante de ser trabalhada quando lemos que o total de objetos construídos pela humanidade supera, pela primeira vez, a massa dos seres vivos na Terra. Conforme matéria da Folha de S. Paulo, “a transformação de matérias-primas naturais em artefatos humanos cresceu de forma tão vertiginosa que, a cada semana, os novos objetos feitos pela nossa espécie superam o peso corporal de cada pessoa viva hoje”. A pesquisa foi publicada na revista científica Nature por uma equipe do Instituto Weizmann de Ciência. Os plásticos já superam todos os animais somados: são oito gigatoneladas (bilhões de toneladas) contra quatro gigatoneladas dos animais, revela o estudo.

A leitura da notícia acabou permeada aqui por uma provocação do líder índigena Ailton Krenak, ambientalista, filósofo e escritor. Feita em outro contexto, mas adequada ao que parece necessário em termos de debate. É uma afirmação com potencialidade de ruptura com a mesmidade automática da nossa relação com o entorno:

Outro dia fiz um comentário público de que a ideia de sustentabilidade era uma vaidade pessoal, e isso irritou muitas pessoas. Disseram que eu estava fazendo uma afirmação que desorganizava uma série de iniciativas que tinham como propósito educar as pessoas para a sustentabilidade. Aí eu disse: “Eu concordo com você que nós precisamos nos educar sobre isso, mas não é inventando um mito da sustentabilidade que nós vamos, de verdade, trabalhar pra isso”. Inventando um mito da sustentabilidade, nós vamos apenas nos enganar, mais uma vez, como quando inventamos as religiões, por exemplo. Tem gente que fica muito confortável se contorcendo na ioga, ralando no caminho de Santiago ou rolando no Himalaia, achando que com isso está se elevando. Na verdade, o que ele está fazendo é só uma fricção com a paisagem, não vai fazer ninguém sair do ponto morto. Então, é uma provocação acerca do egoísmo. Eu não vou me salvar sozinho de nada! Eu não tenho fuga. Nós estamos todos enrascados. E eu acho que seria irresponsável ficar dizendo para as pessoas que se nós economizarmos água, ou se só comermos orgânicos e andarmos de bicicleta, nós vamos diminuir a velocidade com que nós estamos comendo o mundo.**

A mágica desse pensamento provocador é justamente mostrar que é preciso quebrar o automatismo. A existência, para ir além da mera sobrevivência, precisa de um lugar de começar, para nós e para o jornalismo. No conjunto de críticas que lemos aqui, no sentido de como o jornalismo nos interessa, temos posto que é necessário distender o tempo – espaço que habitamos, pensando nossas vidas por modos que não neguem o compartilhar.

Krenak não desconsidera a ação sustentável, mas chama a atenção para a necessidade de um pensamento que abarque todos os seres. Sem essa ótica solidária aberta, não apenas humana, outros mundos, além da nossa experiência objetiva, continuam desconsiderados. Fazer esse tipo de comunicação nos leva a uma abordagem de atravessar, de ir a outros povos e ter com outras mediações culturais. Como o próprio Krenak costuma alertar em seus livros, nossa ótica não pode ser pautada apenas por um mundo de concreto, de ruas e de cidades, “que imprime no corpo da Terra a marca dos homens como se eles fossem a única existência inteligente e sensível”.

Nossos movimentos narrativos, portanto, não deveriam reforçar a predação que dá origem a relatos como esse da pesquisa mencionada, de um andar hegemônico, que nos propõe ir pelo mundo como se a proposta desenvolvimentista branca e ocidental fosse a única inteligência válida. A mesma inteligência que tem já sabe o que está fazendo, mas celebra o autoengano. Quando alguém aponta o equívoco, a reação é considerar a crítica radical. A reação do jornalismo é, também, ver utopia, a impossibilidade. Em geral, nos mantemos brutais em alimentar a colisão, encerrados em nossa fixação aos objetos, dependentes da máquina de fazer coisas, como reflete Krenak, uma máquina que não queremos desligar. Por isso, quando vai falar, o jornalismo também gosta desse lugar confortável.

 

* Este texto foi produzido por integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) no âmbito do projeto de extensão "Observatório de Jornalismo Ambiental". A republicação é uma parceria com o Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul (NEJ-RS).

**Ailton Krenak, Radicalmente Vivos. Citado por olugar. Disponível em: https://www.instagram.com/p/CIYk58ugkp3/

 

 

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