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Observatório de Jornalismo Ambiental

Segunda-feira, 25 de Julho de 2022

 
     

Ano passado eu morri... e agora?: a repercussão de mais um relatório do MapBiomas

  

A informação dos relatórios precisa ser cada vez mais tratada pelo jornalismo como a ponta de um fio, que deve ser tecido com cruzamento de dados e apuração constante do tema

  


Por Cláudia Herte de Moraes*

O título mais sombrio tem razão de ser.  Os alertas quanto às mudanças climáticas são contundentes e cada vez mais sabemos que não é alarmismo da mídia ou de cientistas divulgadores. O que estamos vivendo já demonstra claramente o “novo normal” que se coloca como desafio. Na última semana vimos ondas de calor sem precedentes na Europa serem tratadas ainda como oportunidade para tomar sol ou tomar sorvete, bem como medidas pontuais quanto à ação climática por parte do governo norte-americano de Joe Biden, e  divulgação de mais dados sobre o crescente desmatamento no Brasil – tema sobre o qual este texto se debruça.

Ano passado, em junho, fiz uma análise neste Observatório tratando do desmatamento crescente nos biomas brasileiros, aproveitando a repercussão do lançamento do MapBiomas Alerta. Nesta semana, a contar de 18 de julho de 2022, voltamos a buscar as mesmas informações, novamente acompanhando o relatório que traz então as informações a respeito do desmatamento monitorado em 2021. O MapBiomas Alerta é uma iniciativa do consórcio MapBiomas constituído por mais de 20 instituições, entre ONGs, universidades e startups de tecnologia. Aberto ao público, pode ser consultado no site.

Em 2022, a equipe do MapBiomas concluiu que o desmatamento cresceu 20% em todos os biomas, tendo grande contribuição de atividades ilegais. O mesmo que concluiu nos anos anteriores do levantamento, ou seja, o problema só cresce! A minha questão é pensar como tratamos os preceitos da proteção ambiental no Brasil, tendo em vista a riqueza da nossa diversidade biológica nos diferentes biomas do território. A informação factual dos relatórios é relevante, porém precisa ser cada vez mais tratada pelo jornalismo como a ponta de um fio, que deve ser tecido com cruzamento de dados, apuração constante do tema, trazendo sempre contextualização quanto a causas e efeitos, perdas e danos da política do desmatamento brasileiro. Para observar a cobertura do lançamento de 2022, procurei ver em que medida esta contextualização está presente nas notícias, ressalvando que a repercussão do relatório pode – e deve – ser realizada nas próximas semanas.

No grandes portais UOL e G1, houve destaque ao resultado apontado pelo estudo que indicou, pela primeira vez, os setores responsáveis pelo desmatamento: a agropecuária com percentuais acima de 97%, citando também outros setores como garimpo, mineração, expansão urbana e outras causas minoritárias. O UOL também salientou que os órgãos de controle conseguiram atuar em menos de 3% do desmatamento ilegal identificado, ou seja, falta capacidade do Estado e do governo para atacar o problema.

No site especializado ((o))eco, houve realce para a fala do coordenador do MapBiomas, Tasso Azevedo, que afirma a necessidade de se atacar a impunidade, visto ser ela um incentivo ao problema da ilegalidade cometida sem a devida punição.

Como jornalismo contra-hegemônico, indico o exemplo da notícia do Brasil de Fato, no trecho que deu destaque à responsabilidade da ganância econômica, com a biodiversidade sendo transformada “em pasto, commodities agrícolas e especulação fundiária”. Na rede Mídia Ninja, a ênfase foi para o menor índice de perdas nas terras indígenas, embora se apresente a violência crescente contra seus povos e ativistas. Os povos indígenas conseguiram melhor preservar a cobertura vegetal mesmo diante da destruição que avança nas matas, lutando contra o PL 490/2007 (“Marco Temporal”) e o Projeto de Lei 191/20, de autoria de Bolsonaro, que permite exploração de recursos minerais, hídricos e orgânicos em reservas indígenas. A contextualização na MN se dá pela responsabilização da política: “No período da gestão de Jair Bolsonaro à frente da presidência da República, entre 2019 e 2021, apenas 0,9% dos imóveis rurais concentram 77% da área desmatada no país em 2021, o que representa poucos atores somando gigantescas áreas de desmatamento”.

Tratar das conexões com outras questões ambientais e climáticas, tais como avanço do agronegócio, garimpos, mineração sobre as matas, descaso com fiscalização, impactos em relação à mudança climática, relação com áreas protegidas e terras indígenas, entre outros, é bastante positivo. Apontar e cobrar as responsabilidades públicas, ainda mais. É assim que cada cidadão poderá entender a dinâmica do que está em disputa – a nossa sobrevivência enquanto humanos – e poderá também agir, especialmente pela pressão aos poderes. Afinal, é necessário construir soluções para o nosso hoje e atuar democraticamente na defesa dos biomas. Diante deste desafio, o jornalismo tem plenas condições de atuar, pois pode trazer o debate sobre a política e sobre quem nos representa, que sejam aliados do ambiente ou, caso contrário, seguiremos a chorar mortes e perdas, ano após ano.

 

* Texto produzido no âmbito do projeto de extensão "Observatório de Jornalismo Ambiental" por integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). A republicação é uma parceria com o Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul (NEJ-RS). Cláudia Herte de Moraes é jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM, Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

 

 

 

 

 

 

 

 

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