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Observatório de Jornalismo Ambiental

Segunda-feira, 23 de Agosto de 2021

 
     

Joaquim Leite ignora a imprensa. E vice-versa

  

Não resta dúvida que Joaquim Leite quer seguir a política predadora de Salles e Jair Bolsonaro bem longe dos jornalistas. A imprensa precisa cumprir seu papel de fiscalizador e buscar formas de contornar a estratégia furtiva do novo ministro

  

Captura de tela do site G1     


Por Sérgio Pereira*

Nessa segunda-feira (23), completam-se exatos dois meses da demissão de Ricardo Salles do Ministério do Meio Ambiente (MMA). Nos dois anos e meio em que ficou à frente da pasta, Salles se comportou exatamente de forma oposta ao que se espera de um ministro da área. Durante sua gestão, o Brasil bateu recordes de desmatamento e de áreas destruídas por queimadas na Amazônia e no Pantanal. Sua saída foi vista como um alívio não apenas pelos ambientalistas, mas por todos que se preocupam minimamente com a questão ambiental.

Em seu lugar assumiu o pouco conhecido Joaquim Alvaro Pereira Leite e, como sempre, a mídia se apressou em apresentar o perfil do recém-empossado, inclusive informando que sua família está envolvida em disputa de terras indígenas em São Paulo. Desde então, o MMA e, principalmente, o novo titular da pasta deixaram praticamente de ser notícia, como se a exoneração de Salles tivesse resolvido todos os problemas.

Uma busca personalizada no Google já é reveladora. Nos dois primeiros meses no ministério, Salles foi citado em 2.037 notícias (1.310 em janeiro e 727 em fevereiro de 2019). Já Leite tem apenas 816 (600 entre junho e julho e 116 entre julho e agosto deste ano), a maioria pautada por sua nomeação em 23 de junho e pela apresentação de seu currículo pela imprensa.

Estratégico, Leite não busca a polêmica e evita dar entrevistas. O oposto de seu antecessor, que chegou ao absurdo de ser fotografado em frente a dezenas de toras de árvores quando foi ao Pará, com o surreal objetivo de devolver aos madeireiros a carga ilegal apreendida pela Polícia Federal.

Leite quase busca o anonimato. No site do Ministério do Meio Ambiente, ele foi citado em notícias apenas 11 vezes em dois meses, uma média de um texto a cada seis dias. Uma forma de acompanhar seus passos é consultar sua agenda oficial, também disponível no site da MMA. Assim é possível verificar que o ministro já esteve reunido com diversas entidades empresariais, como Federação das Indústrias do Estado de São Paulo/Fiesp, Confederação Nacional da Indústria/CNI, Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil/CNA, Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos/Apex, Associação Brasileira dos Produtores de Algodão/Abrapa, e com representantes de empresas como Vale, Shell, Klabin (a maior exportadora de papéis para embalagens do Brasil) e Cidade Matarazzo (empreendimento imobiliário paulista), em audiências individuais.

Sua agenda aponta apenas um horário com entidades ambientais, no dia 17 de julho, registrado como “Reunião com ONGs”. O encontro, de apenas uma hora, foi com integrantes da Conservation International Brasil, The Nature Conservancy Brasil, Tropical Forest Alliance e Save Cerrado, entre outras. O tema na agenda eletrônica identifica a reunião como “Processo de Escuta Pré COP26”. Ou seja: uma reunião de preparação para a 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que ocorrerá em Glasgow, na Escócia, em novembro deste ano.

Por sinal, o novo ministro viajou para Londres, em julho, para participar de encontro preparatório para a COP26. Curiosamente, o site do MMA não traz postagens sobre seu compromisso no Reino Unido. Os jornais tradicionais brasileiros também, praticamente, ignoraram a viagem.

Outro dado indicador de seu estilo registrado em sua agenda é que reservou horário apenas uma vez para conceder entrevista até agora, três dias após a posse, para uma equipe do Valor Econômico.

Numa análise sobre os sites de notícias G1, Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, é possível verificar que o estilo discreto de Joaquim Leite contaminou a pauta dos três veículos. No portal da Globo, o atual ministro aparece como destaque apenas em uma oportunidade após a sua posse, quando de uma visita à base militar do Pará.

A Folha segue o mesmo compasso. Destaque apenas para um elogio do vice-presidente Hamilton Mourão ao novo titular da MMA. O jornal paulista, no entanto, merece menção pelo editorial de 7 de julho (“Circo amazônico”), que cobra do vice-presidente e de Leite solução para o desmonte na fiscalização no Norte do país. O Estadão, por sua vez, é ainda mais econômico ao abordar o assunto, e os poucos registros se resumem a algumas colunas de opinião e com enfoque favorável ao governo, como as constantes viagens à Amazônia e uma suposta cobrança do ministro em reunião com o presidente da COP26 para “reconhecimento de esforços de países subdesenvolvidos”.

Não resta dúvida que Joaquim Leite quer seguir a política predadora de Salles e Jair Bolsonaro bem longe dos jornalistas. Estamos entrando no período crítico das queimadas nas regiões Norte e Centro-Oeste. No ano passado, tivemos recordes de destruição. A imprensa precisa cumprir seu papel de fiscalizador e buscar formas de contornar a estratégia furtiva do novo ministro. Caso contrário, corremos o risco de deixar a boiada passar novamente. E no maior silêncio.

 

 

*Texto produzido no âmbito do projeto de extensão "Observatório de Jornalismo Ambiental" por integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). A republicação é uma parceria com o Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul (NEJ-RS). Sérgio Pereira é jornalista.

 

 

 

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