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Terça Ecológica

Sábado, 25 de Junho de 2022

 
     

Palestrantes vão expor “As razões das resistências à expansão dos parques eólicos offshore”

  

Impactos negativos são registrados no Ceará, de onde pescadores artesanais gaúchos obtiveram informações a partir do anúncio do governo de explorar a Lagoa dos Patos

  


Por Eliege Fante - especial para a EcoAgência

O Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul (NEJ-RS), realiza a Terça Ecológica mensal em 28 de junho, de forma remota com transmissão pelo canal da EcoAgência no Youtube. Entre 19h e 21h, os convidados vão abordar “As razões das resistências à expansão dos parques eólicos offshore”. São eles: Elisangela Paim da Fundação Rosa Luxemburgo e Paulo Brack do Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais, o Ingá. Convidamos também pescadores e pescadoras que vivem no entorno da Lagoa dos Patos, extremo sul gaúcho, onde o governo estadual anunciou, entre o final de dezembro de 2021 e o início de janeiro de 2022, a intenção de conceder à iniciativa privada essa forma de exploração energética. Porém, lideranças das comunidades locais dependem da pesca artesanal para sobreviver e afirmam não terem sido ouvidas já que não receberam os esclarecimentos requeridos durante a audiência pública, realizada em 21 de janeiro de 2022, tanto que reivindicam a anulação da mesma. Além de não terem recebido as respostas necessárias, a maior parte dos pescadores e pescadoras têm acesso precário à internet, o que impossibilita e ou dificulta a participação virtual em eventos, como na Terça Ecológica. Dessa maneira, a participação dessas lideranças no nosso evento mensal vai depender das condições que tiverem no horário da live.

São 13 mil pescadores registrados trabalhando na Lagoa dos Patos, segundo o parecer técnico elaborado por especialistas, o único documento disponível que traz informações a respeito da Lagoa dos Patos e as condições para a exploração eólica offshre, bem como resultados de pesquisas a respeito dos impactos de eólicas em terra (onshore) e em alto mar. Apresenta também dados da biodiversidade, das comunidades e da necessidade legal de haver consulta e o consentimento para a efetiva implantação dos projetos. No entanto, em 17 de junho último, o governo gaúcho assinou um “Memorando de Entendimento entre o Governo do Estado do Rio Grande do Sul e a Empresa Ocean Winds SL para Desenvolver Projetos de Geração de Energia Eólica Offshore no Estado” (assistir aqui), após encontros presenciais com empreendedores europeus (missão gaúcha) e nenhum presencial com as comunidades pescadoras artesanais da Lagoa dos Patos.

No vídeo da assinatura do Memorando, informações sucintas apresentam o Porto de Rio Grande como o centro logístico e o suporte aos projetos de desenvolvimento de Hidrogênio Verde (H2V). Entretanto, as comunidades rio-grandinas pouco ou nada sabem a respeito desse Memorando ou mesmo dos projetos de H2V. Integrante do Fórum de Pescadores da Lagoa dos Patos, pescador Nilmar Conceição, expôs em live recente as questões e as preocupações diante da falta de diálogo com o governo gaúcho: “Queremos informação sobre quantas eólicas são, onde e quando vai ser. Só disseram que eólica é energia limpa. Mas para onde vai a energia, através de que cabos e se são submersos. Como vamos pescar ali em volta? Esse cabo vai para onde, qual sua extensão? Fui ao Ceará e o que vi foi um desrespeito, mesmo com eólica em terra, e ficamos muito preocupados. Eles têm que assinar termos de responsabilidade para chegar até seus barcos e a mão de obra não é local nos parques. Eles tinham água potável, mas houve contaminação do lençol freático. Há barulho, as casas estão rachadas, então se causa dano para a vida não é energia limpa. Será que vamos sofrer isso aqui?”   

Do Ceará, Ítalo Lourenço foi convidado para participar virtualmente da Terça Ecológica, mas tem compromisso na comunidade no mesmo horário e por isso compartilhou algumas informações da situação local. Contou que vive na praia do Batoque, na comunidade do Batoque, que essa área está na Reserva Extrativista (Resex) do Batoque, situada no município Aquiraz (CE), gerida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Lourenço afirma que o território é pesqueiro e que a comunidade não foi ouvida, apenas a associação foi informada dos supostos benefícios que chegariam com a implantação das torres e aerogeradores. “A eólica da morte não traz benefício para nossa comunidade, traz para os empreendimentos grandes. Disseram que a comunidade ia ter energia, mas a realidade é diferente.” Lourenço já conhece os impactos das eólicas em terra e teme que sejam os mesmos no mar: “Dizem que ali é deles, instalam e ninguém pode chegar perto delas [torres], tem guarda para ninguém entrar, antes a gente andava livremente. Já está imenso na terra e agora querem implantar no mar e isso nos prejudica porque é área de pesca, e com isso vamos pescar onde? Ali vai ser igual em terra, não vai poder chegar perto, estamos tentando lutar contra essas eólicas da morte. Eles viraram dono do mar, nunca pediram opinião,” relatou.  

A expansão dos parques eólicos onshore e offshore atinge diversos os estados da costa brasileira sob o argumento de que essa energia renovável é limpa em contraposição à energia gerada a partir dos combustíveis fósseis. No entanto, as comunidades tradicionais e originárias acumulam registros dos impactos negativos sobre a biodiversidade e que interferem na sua rotina produtiva, bem como a sustentação dos modos de viver, o que vem contribuindo para o debate sobre a condição de “limpa” dessa forma de geração energética. Os governos têm assinado dezenas de acordos bilionários com empresas europeias para a implantação de parques eólicos offshore e de usinas de produção de hidrogênio verde (H2V) nos portos brasileiros. Esses acordos amparam-se no discurso de descarbonização da economia com geração de oportunidades de desenvolvimento, em especial aos países como o Brasil, tidos como emergentes ou em desenvolvimento pela Comunidade Europeia. Também representam os principais projetos para reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEE) em mais de 40% até 2030 considerando a meta indicada por cientistas através do Sexto Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC). Na prática, consiste no esverdeamento dos setores mais poluentes, ou seja, que mais emitem o dióxido de carbono (CO2), tais como mineração e siderurgia, petroquímica, produção de fertilizantes e transportes pesados. A compreensão é de que as emissões serão reduzidas apenas com a substituição da fonte energética e sem a mudança no volume de produção e de consumo da sociedade ocidental.

 

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